
Há cerca de 10 anos, havia diversas opções de antibióticos para tratar infecções. Porém, o número de medicamentos eficazes contra essas doenças, como a infecção urinária, vem reduzindo. Esse fenômeno é conhecido como resistência antimicrobiana, que pode originar as “superbactérias” — tipo de bactérias resistentes a vários antibióticos — e é um dos principais desafios de saúde global.
Uma análise publicada pela revista The Lancet estima que o número de mortes causadas pelo aumento da tolerância a antimicrobianos deve crescer em 69,6% até 2050, principalmente em países do sul da Ásia, do Caribe e da América Latina, entre eles o Brasil. O estudo aponta que é possível prevenir o cenário ao minimizar o uso inadequado de medicamentos como antibióticos.
Visando combater o crescimento do problema que pode gerar essas “superbactérias”, comuns em ambiente hospitalar, e auxiliar os profissionais de saúde no Ceará, a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) lançou, no início deste ano, o primeiro Guia de Antimicrobianos na Atenção Primária. Destinado a médicos, enfermeiros, dentistas e farmacêuticos, o manual busca frear o fenômeno logo na “porta de entrada” do sistema de saúde.
Um dos autores do documento, o infectologista Lauro Perdigão Neto, secretário-executivo de Atenção à Saúde e Desenvolvimento Regional da Sesa, explica que o guia pretende frear o avanço do problema, preservando a saúde coletiva, além de contribuir com o planejamento da aquisição de remédios pelos municípios.
“A multirresistência está caminhando muito mais rápido do que a disponibilidade de novos fármacos capazes de tratar essas infecções. Então, quanto mais a gente atrasar o fenômeno, melhor para as próximas gerações, porque elas ainda vão ter a possibilidade de utilizar medicações que hoje são usadas”, detalha.
A urgência em combater o fenômeno também se justifica devido ao retrocesso causado pela pandemia de Covid-19. Conforme o infectologista, o uso de antibióticos foi acelerado durante o período, tanto pela falsa impressão de que eles agiriam contra o vírus quanto pelas complicações em pacientes graves. E isso intensificou o problema ecológico da resistência.
O aumento da tolerância bacteriana é explicado pela teoria da seleção natural das espécies, do biólogo Charles Darwin: expostas a antibióticos, algumas bactérias mais fortes podem sobreviver e se reproduzir, resultando em uma versão menos sensível ao medicamento. O ciclo pode continuar ao ponto de a droga não surtir mais efeito.
*Com informações do Diário do Nordeste.