
Na parte mais fechada e escura da Serra de Baturité, em meio às copas interligadas das árvores, um canto irrompe no início do dia. É sinal de que ali tem bicho, coisa viva e sonora. Esse canto é único e de espécie genuinamente cearense, recentemente descoberta por pesquisadores: a tovaca-de-baturité, como foi batizada. Junto ao soldadinho-do-araripe, agora é a segunda espécie endêmica do Ceará, ou seja, com ocorrência exclusiva no Estado.
De difícil observação, a tovaca vive principalmente no solo das florestas, em áreas mais densas e de pouca luz. Costuma cantar mais no começo das manhãs, quando ainda está um pouco escuro, o que dificulta ainda mais observá-la. “Ainda não sabemos quase nada sobre os hábitos de vida dela”, introduz Marco Aurélio Crozariol.
Biólogo e curador da coleção de Aves do Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), o estudioso explica que a espécie é comum nas regiões sul e sudeste do País, mas apresentava populações também no Ceará. Com o tempo, foi observado que essa população em solo cearense possuía cor diferente na testa e também canto distinto daquelas com ocorrência no centro-sul do Brasil.
A partir disso, pesquisadores estudaram variações na coloração e no canto, e identificaram que a população do Ceará era particular, diferente de todas as outras conhecidas. Não à toa, o título agora de “nova espécie”.
“Apesar disso, ainda não temos uma análise molecular/genética pra dizer a quanto tempo ela está isolada no Ceará e se separou das populações do sudeste e sul do Brasil”, considera Marco.
Fato é que cientistas acreditavam que a espécie era nova já há alguns anos. Contudo, conforme Marco, são necessárias análises cuidadosas para descrever algo tão raro assim. Exige tempo e recurso – algo reforçado por Vagner Cavarzere, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.
Segundo ele, a existência da população da tovaca em Baturité também não era desconhecida. Havia espécimes no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, o Mzusp, coletados no início da década de 1940. No entanto, essa população era considerada exatamente igual à população do restante da Mata Atlântica, a tovaca-campainha.
COMO A ESPÉCIE FOI DESCOBERTA?
“Um grande ornitólogo, o estadunidense Edwin O. Willis – professor na Unesp em Rio Claro – nos alertou para diferenças morfológicas dos espécimes cearenses ainda em 1992. Mas foi apenas a partir de 2024, quando um aluno meu começou a investigar as vocalizações ao longo de toda a distribuição da tovaca-campainha na Mata Atlântica, que a diferença vocal tornou-se evidente”, detalha Vagner. A partir daí, série de ações foram realizadas para confirmar a teoria.
Análises vocais tradicionais e com auxílio de aprendizagem de máquina demonstraram que o grau de diferenciação entre as populações da tovaca-campainha era enorme.
“Com isso, meus alunos – um de graduação, outro de mestrado, e eu – demos um nome científico inédito à tovaca-de-baturité. Até então, ela recebia o mesmo nome científico da tovaca-campainha, a qual ocorre ao sul do rio São Francisco, desde o sul da Bahia até o Rio Grande do Sul, Argentina e Paraguai”, completa o pesquisador.